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terça-feira, 14 de junho de 2011

Madre Fidelis Weninger faleceu na Áustria nesta sexta-feira

A Congregação Filhas do Amor Divino sofreu mais uma perda nesta sexta-feira (20). Faleceu em Viena, na Áustria, a Madre Fidelis Weninger, austríaca que veio para o Brasil em 1939, ainda noviça. Foi diretora do Colégio das Neves, Superiora Provincial e depois superiora geral da Congregação.

A Madre Fidelis Weninger nasceu na Áustria no dia 27 de agosto de 1919 e foi admitida ao Noviciado em Viena em  27 de agosto de 1938. Ela veio para o Brasil em 1939 ainda como noviça. Fez a Primeira Profissão no dia 25 de janeiro de 1940, em Açu (RN). No mesmo município, fez a Profissão Perpétua no dia 25 de janeiro de 1945.

Esta semana, a Congregação lamentou também a morte da Irmã Maria Edwiges Witkowska, decorrente de problemas cardíacos. Aos seus quase 94 anos, a freira austríaca de origem polonesa faleceu na quarta-feira (18), na Vila Maria (residência das Irmãs idosas), em Emaús – Parnamirim/RN, local onde morava desde que se aposentara das atividades dentro da escola.

FREIRA BAILARINA

Fernando Vivas

Alessandra, 28 anos (à esq.), já foi bailarina: "Sentia um vazio"
Com seus 20 e poucos anos de vida, morando em Natal, no Rio Grande do Norte, Alessandra Oliveira era uma moça como outra qualquer de sua idade. Vivia com a família, cursava educação física, tinha sua roda de amigos, gostava de sair para fazer compras, ir ao teatro, assistir a shows de música. Chegou até a ser bailarina de um grupo de dança moderna. Mas nessa época da vida, quando as incertezas afloram e a mente dos jovens é um quebra-cabeça de vontades, Alessandra começou a questionar se era mesmo aquilo que ela queria. Sentia falar mais alto dentro de si outra vocação, bem diferente da educação física. Aos 25 anos, depois de muito refletir, ela anunciou à família e aos amigos o novo rumo que tomaria. Tinha resolvido ser freira. "O consumismo e o sexualismo do mundo moderno não atendiam às minhas vontades. Sentia um vazio muito grande. Queria mesmo era ajudar essa imensa massa sofredora que existe no país", diz ela, que hoje, aos 28 anos, é noviça da Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, do Recife, e faz estágio num asilo para 160 velhinhos carentes de Salvador, na Bahia. "Sozinha não conseguiria ajudar tanta gente. É uma vida de sacrifícios, mas é um sacrifício compensador."

Joel Rocha

Edna, 30 anos: "Nunca namorei, só queria me consagrar a Deus"


Pode parecer estranho que uma jovem como Alessandra queira abraçar a vida religiosa num mundo individualista como o de hoje, onde dinheiro, sexo, fama e poder são tão valorizados. Ela não está sozinha – embora esteja com cada vez menos companhia. Há no Brasil 1.585 noviças, moças que em breve estarão professando os votos de obediência, pobreza e castidade, colocando-se a partir daí totalmente à disposição do que manda a Igreja Católica: servir a Deus numa vida de sacrifícios, orações e ajuda ao próximo. Em 1970, o noviciado brasileiro contava com 1.450 jovens. É um número francamente cadente, que denuncia um significativo decréscimo no aparecimento de vocações, já que a população brasileira praticamente dobrou nesse período. Diferentemente dos sacerdotes, que, nas igrejas, travam contato direto com os fiéis ao ministrar sacramentos como a comunhão, o batismo e o matrimônio, a vida das religiosas parece envolta em mistério para a maioria das pessoas. Elas são, no país, uma comunidade de quase 36.000 irmãs, cuja idade média está na casa dos 60 anos (veja quadro). Esse é outro dado concreto da falta de renovação de quadros das religiosas. Há trinta anos, eram 40.000 freiras. "Há uma crise geral de vocações. Os jovens atualmente têm medo do compromisso", diz a irmã Idelfonsa Xavier, superiora-geral da Congregação das Irmãs Franciscanas Alcantarinas, de São Paulo. "É uma época de incertezas, numa sociedade instável, em que tudo é descartável e provisório."


Fernanda Davoglio

Cleudes, 29 anos: "Não é porque vou ser freira que vou deixar de ser mulher"


Tal contingente de irmãs sexagenárias pode sugerir uma grande sintonia com os valores tradicionais, exercitados numa vida reclusa, ainda mais se tratando de ordens religiosas que pertencem a uma Igreja que tem 2.000 anos de idade. Só que, pouco a pouco, a vida das religiosas brasileiras vem ganhando sopros de modernidade. Foi o que constatou a socióloga Silvia Fernandes em sua tese de mestrado, defendida há dois anos na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Silvia estudou quatro diferentes congregações do Rio e constatou o impacto do mundo atual dentro delas. "A vida religiosa feminina está passando por um processo de mudança profundo. Há uma tentativa de refundação, de adaptação ao mundo moderno", diz a socióloga, que, entre outras coisas, descobriu que de vinte de suas entrevistadas simplesmente dezessete já se haviam submetido a algum tipo de terapia depois de ter entrado para o convento.
O processo de seleção para a vida religiosa é rigoroso. Antigamente, muitas moças se tornavam freiras por influência da família. Várias delas chegavam ao convento com 10 ou 12 anos de idade e, dali, sem muito questionar, seguiam seu caminho. Isso mudou. Só pode ser noviça quem tem o 2º grau completo. Alguns conventos exigem também idade mínima de 18 anos para o ingresso na vida religiosa. Antes do noviciado, as candidatas passam pelo aspirantado e pelo postulado, etapas que, em geral, consomem no mínimo três anos de dedicação. Se seguirem em frente, as jovens entrarão no noviciado, no qual costumam passar dois anos. É uma época de estudos, orações e consagração aos trabalhos da congregação. "Exigimos mais certeza das candidatas. Ninguém virá para cá porque brigou com o namorado ou para fugir de uma vida turbulenta em casa", explica a irmã Lúcia Clotilde, mestra das noviças na Congregação das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, em São José dos Campos, São Paulo. Mas, se por um lado os conventos se tornaram mais exigentes no que diz respeito aos estudos, por outro, estão livrando-se de alguns tabus. "No passado, uma jovem que não fosse virgem não seria aceita numa congregação. Se ainda fosse assim, os conventos estariam fechando suas portas. Já é aceitável, portanto, que uma jovem que teve uma experiência sexual mais cedo, por causa de uma aventura, receba mais tarde o chamado de Deus e seja aceita na congregação", diz a irmã Santa Mendes da Silva, formadora de noviças do Instituto das Irmãs Missionárias de Nossa Senhora de Fátima, em Araruama, no Rio de Janeiro.
Mudaram também os valores familiares. "Antigamente, as famílias incentivavam a vocação religiosa das filhas. Hoje as mães não deixam as filhas entrarem para a Igreja", lamenta a irmã Adelaide Schmoeller, superiora provincial da Congregação das Irmãs de Santa Catarina Virgem e Mártir, de Petrópolis, no Rio. Os primeiros meses no convento costumam ser os piores para as jovens que querem ser freiras. Chamadas de postulantes, elas experimentam pela primeira vez a ruptura com sua vida pregressa. Perdem o convívio com a família, a companhia dos amigos. "É uma experiência radical. Largar tudo para seguir Jesus Cristo", diz a noviça Elaine Martins de Sousa, carioca de 20 anos, que pertence à Congregação das Franciscanas Alcantarinas. "No início é difícil, dá vontade de largar tudo. Pelo telefone, falava com minha irmã, que contava das festinhas, das idas ao shopping. Isso mexia muito comigo", continua ela, que persistiu em sua fé e está há dois anos no convento. Elaine, que sempre foi religiosa, sentiu-se chamada por Deus ainda adolescente. "Deus age nas nossas vidas. Desde os 12 anos de idade via notícias de países em guerra na África e queria estar lá no meio, fazendo a minha parte", conta.
Elaine, que sempre viveu no Rio de Janeiro, cidade cheia de atrativos mundanos, não é o exemplo clássico de noviça no Brasil. Em 74% dos casos elas são moças do interior, de cidades com menos de 20.000 habitantes. "A cidade grande oferece muitos prazeres. Então, é difícil para uma jovem aceitar a noção de sacrifício", diz a madre Zenir Maria Crippa, superiora provincial da Congregação das Irmãs Franciscanas da Sagrada Família de Maria, em Curitiba, no Paraná. "As moças do interior costumam dedicar-se mais aos trabalhos da Igreja." É o caso da noviça Edna Rodrigues, 30 anos, da cidade de Matão, no interior de São Paulo, que está em sua congregação. Resolveu ser freira porque sempre dedicou sua vida às orações e aos trabalhos dos grupos de jovens da paróquia de sua cidade. "Nunca namorei, nunca pensei em casamento, só queria me consagrar totalmente a Deus", diz Edna.
Nem tudo, porém, é feito de sacrifícios e privações. Em boa parte das congregações religiosas as freiras e noviças têm acesso à internet. O uso, contudo, é restrito. É permitida a troca de e-mails entre as bases da congregação em diferentes cidades e a navegação só deve ser feita quando relacionada aos estudos. "A internet é como a TV. Não é para divertir, é para informar. Aqui ninguém vê novelas, só noticiários. As novelas só destroem", diz a irmã Lúcia Clotilde, da Congregação de Maria Imaculada. Os estudos são muito incentivados dentro dos conventos. De acordo com uma pesquisa da Conferência dos Religiosos do Brasil e do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais, apenas 39% das religiosas brasileiras possuem formação superior. Esse quadro pode estar mudando. Na Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria, com sede em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, há 953 religiosas. Entre as 110 irmãs mais jovens, com idade entre 25 e 45 anos, 97 cursam ou já cursaram uma faculdade. Em geral administração, direito e medicina. A noviça Cleudes dos Santos Ferreira, de 29 anos, nascida no interior de Goiás, pretende estudar serviço social quando terminar o noviciado. "O mundo está andando. Vou ficar parada?", pergunta ela, que, graças ao estatuto interno da congregação, não precisa usar o hábito. "Usamos roupas normais, calça comprida, saia, blusa. Nada decotado, é claro. Se quisermos, também podemos usar uma maquiagem discreta. Não é porque vou ser freira que vou deixar de ser mulher. É preciso ser feminina", afirma.
FONTE: REVISTA VEJA